Nosso é o mar. Nosso e renosso.
Pla dor, pla teimosia, pela esperança.
Nosso até onde a vista o não alcança.
Nosso até onde é nosso o que for nosso.
Mas depois de o ter ganho abandonámos
alma e corpo à fadiga de o ter ganho.
Bartolomeu, não olhes. Não despertes
do sono que te dorme há cinco séculos.
Já o gume das quilhas não fecunda
teu ventre feminino, Mar aberto.
Falsa energia a nossa! Desflorado
teu sexo, Mar, aos corvos o cedemos.
Voluptuosa e saudável, tua carne
é convite e oferta como dantes.
Nós, mortos! Nós, sem força! Nós, sem fogo,
de uma saudade mole possuídos!
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
#27 - TEMPESTADE, Sebastião da Gama
O Vento enchia o Mundo. Mal deixava
lugar para a tremenda voz das ondas.
Mas era o Mar apenas que se ouvia.
lugar para a tremenda voz das ondas.
Mas era o Mar apenas que se ouvia.
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
#26 - BÚZIO DO MAR, Afonso Duarte
Praguejam pescadores: Ora esta, ora esta,
O mar na praia é um tambor em festa!
Danado e rouco ele há lá quem o fateixe!
O mar não anda bom...
E som, e som, som-som,
deita a fugir o peixe.
Meus patrícios, poveiros tal e qual
É a nobreza maior de Portugal!
Mesmo sou duma aldeia à beira-mar,
E ouço-o bem duas légias em redol:
Meio ano a lavoirar,
Outro meio ao anzol!
Meus patrícios cada qual
Tem o seu bote que é o seu casal.
Mas, o Oceano, o mar não anda bom:
Ondas são trambulhões, e trambulhões de som!
Ó mar, meu brutamontes,
Música, deixa ouvi-la da noitinha:
Eu quero ouvir o murmurar das fontes
Que a noite já se avizinha...
sexta-feira, 21 de outubro de 2016
#25 - DOIS POEMAS DA PRAIA DA AREIA BRANCA, Sidónio Muralha
1
Na Praia da Areia Branca
os búzios não falam só do mar:
-- falam das pragas, dos clamores,
da fome dos pescadores
e dos lenços tristes a acenar.
Búzios da Praia da Areia Branca:
-- um dia
haveis de falar
unicamente do mar.
2
No fundo do mar,
há barcos, tesoiros,
segredos por desvendar
e marinheiros que foram morenos ou loiros.
Ali, não são morenos nem loiros,
-- são formas breves, a descansar,
sem ambições para os tesoiros
e de cabelos verdes dos limos do mar.
Serenos, serenos, repousam os mortos,
-- enquanto o mar
ensina o mundo a falar
a mesma língua em todos os pontos.
Na Praia da Areia Branca
os búzios não falam só do mar:
-- falam das pragas, dos clamores,
da fome dos pescadores
e dos lenços tristes a acenar.
Búzios da Praia da Areia Branca:
-- um dia
haveis de falar
unicamente do mar.
2
No fundo do mar,
há barcos, tesoiros,
segredos por desvendar
e marinheiros que foram morenos ou loiros.
Ali, não são morenos nem loiros,
-- são formas breves, a descansar,
sem ambições para os tesoiros
e de cabelos verdes dos limos do mar.
Serenos, serenos, repousam os mortos,
-- enquanto o mar
ensina o mundo a falar
a mesma língua em todos os pontos.
terça-feira, 27 de setembro de 2016
#24 - ONDAS, Sophia de Mello Breyner Andresen
Onde -- ondas -- mais belos cavalos
Do que estes ondas que vós sois
Onde mais bela curva do pescoço
Onde mais longas crinas sacudidas
Ou impetuoso arfar no mar imenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia.
Do que estes ondas que vós sois
Onde mais bela curva do pescoço
Onde mais longas crinas sacudidas
Ou impetuoso arfar no mar imenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia.
Dezembro 89
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Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, 15 de setembro de 2016
#23 - CINZEIRO, Jorge Barbosa
À noute quando escrevo
Tenho fantasias
Que não chego a escrever
Nem conto a ninguém.
Esta, por exemplo,
De ver um paquete
No meu cinzeiro
De feitio oblongo!
Ponho nele, de pé,
As pontas dos cigarros.
São mastros
E chaminés fumegantes...
Os fósforos
São carregamento
E a cinza
São as cinzas das fornalhas...
Deito nele
Pedacinhos de papel que eu rasgo,
-- Restos de algum poema...
São cartas para longe.
Voam à roda do meu cinzeiro
Pequeninos insectos tropicais,
Companheiros nocturnos
Dos poetas da minha terra.
São os pássaros marinhos,
As gaivotas,
Que vêm espreitar
De perto o paquete.
Empurro-o com a mão
E o paquete lá vai,
Com o rumo traçado
Através do Atlântico.
Lá vai!
Os passageiros da primeira
Passeiam no «deck»
Ou jogam o «bridge».
E a rapariga loura
Estira-se indolente
Na cadeira de lona
A ler um romance...
No convés da terceira classe,
Um emigrante qualquer
Debruçou-se na borda
Olhando o horizonte...
Sou eu.
Tenho fantasias
Que não chego a escrever
Nem conto a ninguém.
Esta, por exemplo,
De ver um paquete
No meu cinzeiro
De feitio oblongo!
Ponho nele, de pé,
As pontas dos cigarros.
São mastros
E chaminés fumegantes...
Os fósforos
São carregamento
E a cinza
São as cinzas das fornalhas...
Deito nele
Pedacinhos de papel que eu rasgo,
-- Restos de algum poema...
São cartas para longe.
Voam à roda do meu cinzeiro
Pequeninos insectos tropicais,
Companheiros nocturnos
Dos poetas da minha terra.
São os pássaros marinhos,
As gaivotas,
Que vêm espreitar
De perto o paquete.
Empurro-o com a mão
E o paquete lá vai,
Com o rumo traçado
Através do Atlântico.
Lá vai!
Os passageiros da primeira
Passeiam no «deck»
Ou jogam o «bridge».
E a rapariga loura
Estira-se indolente
Na cadeira de lona
A ler um romance...
No convés da terceira classe,
Um emigrante qualquer
Debruçou-se na borda
Olhando o horizonte...
Sou eu.
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
#22 - BARCOS, Yolanda Morazzo
À querida ilha de São Vicente
de Cabo Verde.
«Nha terra ê quel piquinino
ê São Vicente ê quê di meu.»
Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.
Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.
E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio
À embarcação:
Para o mar!
É para o mar!...
E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...
Cambambe, 3 de maio de 1962
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
#21 - A DOENÇA DA PEDRA, José Jorge Letria
Os barcos padeciam da doença da pedra:
estavam imóveis sobre os ancoradouros
como se não existisse a tentação do mar.
Tinham cordas enrodilhadas, remos ensarilhados,
velame estendido no convés, e, para além disso,
um imenso vazio a inundar os porões e as pontes.
Apodreciam, pacientes, à míngua de vento,
saudoso do embalo das ondas,
desnorteados pela falta de rota.
Eram barcos com uma embriaguez de vento
erguida na proa e uma coroa de algas
levantada nos mastros. Vinham altivos
do mar de outros séculos, arrecadando no bojo
um tesouro de vozes, uma bravura corsária,
uma cobiça de oiro. Deitava-me neles
com um sonho enredado nas malhas que tiram
sustento das águas e com um mapa
para sempre guardado na febre dos olhos.
estavam imóveis sobre os ancoradouros
como se não existisse a tentação do mar.
Tinham cordas enrodilhadas, remos ensarilhados,
velame estendido no convés, e, para além disso,
um imenso vazio a inundar os porões e as pontes.
Apodreciam, pacientes, à míngua de vento,
saudoso do embalo das ondas,
desnorteados pela falta de rota.
Eram barcos com uma embriaguez de vento
erguida na proa e uma coroa de algas
levantada nos mastros. Vinham altivos
do mar de outros séculos, arrecadando no bojo
um tesouro de vozes, uma bravura corsária,
uma cobiça de oiro. Deitava-me neles
com um sonho enredado nas malhas que tiram
sustento das águas e com um mapa
para sempre guardado na febre dos olhos.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
#20 - «Ondas do mar de Vigo», Martin Codax
Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu Amigo!
E ai Deus, se verrá cedo!
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
E ai Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
E ai Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amado,
por que ei gran cuidado!
E ai Deus, se verrá cedo!
se vistes meu Amigo!
E ai Deus, se verrá cedo!
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
E ai Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
E ai Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amado,
por que ei gran cuidado!
E ai Deus, se verrá cedo!
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
#19 - "Nem toda a gente tem o mar em casa", João Miguel Fernandes Jorge
Nem toda a gente tem o mar em casa
por setembro
no lento alegre dia de setembro. O mar de Peniche
clareando a luz do dia, um fogo azul. Azul
com seu halo de claridade espalha o azul
sob o peso do dia branco
por setembro
pelo espanto azul claro de setembro
arde azul nos muros de Peniche. Um mar assim
areia dividida deste fogo
desta luz ardendo no terraço
cada vez mais azul onde o azul clarece em azul
onde o sol vai do setembro saindo.
Apenas um mar uma luz única
visível cor atravessada de um azul denso
entre o esplendor do fogo azul sobre a noite quase.
por setembro
no lento alegre dia de setembro. O mar de Peniche
clareando a luz do dia, um fogo azul. Azul
com seu halo de claridade espalha o azul
sob o peso do dia branco
por setembro
pelo espanto azul claro de setembro
arde azul nos muros de Peniche. Um mar assim
areia dividida deste fogo
desta luz ardendo no terraço
cada vez mais azul onde o azul clarece em azul
onde o sol vai do setembro saindo.
Apenas um mar uma luz única
visível cor atravessada de um azul denso
entre o esplendor do fogo azul sobre a noite quase.
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João Miguel Fernandes Jorge
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
#18 - "O céu, a terra, o vento sossegado..."; Luís de Camões
O céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas, que se estendem pela areia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...
O pescador Aónio que, deitado
Onde co o vento a água se meneia.
Chorando, o nome amado em vão nomeia,
Que não pode ser mais que nomeado:
-- Ondas, dizia, antes que Amor me mate,
Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo
Me fizestes à morte estar sujeita.
Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;
Move-se brandamente o arvoredo;
Leva-lhe ao vento a voz, que ao vento deita.
As ondas, que se estendem pela areia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...
O pescador Aónio que, deitado
Onde co o vento a água se meneia.
Chorando, o nome amado em vão nomeia,
Que não pode ser mais que nomeado:
-- Ondas, dizia, antes que Amor me mate,
Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo
Me fizestes à morte estar sujeita.
Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;
Move-se brandamente o arvoredo;
Leva-lhe ao vento a voz, que ao vento deita.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
#17 - OCEÂNIAS, Branquinho da Fonseca
Ondas do mar me deitaram
sobre o calor das areias
que ao meu corpo se moldaram
pra aquecer as minhas veias.
E aquele corpo de escrava
dando-me força a vencia
pelo gozo que me dava
para o gozo que sofria.
A noite vinha a descer
e subia a maré-cheia...
Eu já tinha o meu poder:
fugi à praia, deixei-a.
Foi assim que regressei
das conquistas do mar bravo,
e ergui palácios de rei
sobre refúgios de escravo.
sobre o calor das areias
que ao meu corpo se moldaram
pra aquecer as minhas veias.
E aquele corpo de escrava
dando-me força a vencia
pelo gozo que me dava
para o gozo que sofria.
A noite vinha a descer
e subia a maré-cheia...
Eu já tinha o meu poder:
fugi à praia, deixei-a.
Foi assim que regressei
das conquistas do mar bravo,
e ergui palácios de rei
sobre refúgios de escravo.
domingo, 30 de novembro de 2014
#16 - MAR INCERTO, António de Sousa
Que triste o som acorda à minha voz!
Como é pálida a luz do meu espelho
E a desse rio azul que não tem foz:
O tempo, em que me vou fazendo velho...
Dias loucos da infância, onde estais vós?
E a alegria -- esse cântico vermelho
Do sangue virgem que não tem avós?
Como se chama a sombra em que ajoelho?
Arfa, cansado, no meu peito um mar:
O mar remoto da remota Ilha
Onde as sereias cantam ao luar...
À esteira dos navios, as gaivotas
Gritam no céu, e o céu, lânguido, brilha
Sem ecos de vitórias ou derrotas.
Como é pálida a luz do meu espelho
E a desse rio azul que não tem foz:
O tempo, em que me vou fazendo velho...
Dias loucos da infância, onde estais vós?
E a alegria -- esse cântico vermelho
Do sangue virgem que não tem avós?
Como se chama a sombra em que ajoelho?
Arfa, cansado, no meu peito um mar:
O mar remoto da remota Ilha
Onde as sereias cantam ao luar...
À esteira dos navios, as gaivotas
Gritam no céu, e o céu, lânguido, brilha
Sem ecos de vitórias ou derrotas.
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
#15 CANÇÃO, Cecília Meireles
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
-- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as veias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
e o navio em cima do mar;
-- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as veias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
#14 - ILHA, Daniel Filipe
No azul líquido é somente
um ponto anónimo da carta.
Ó minha fala inconsequente!
Saudade morna do ausente,
distante ainda que não parta!
O horizonte é linha de água
por estrelas-peixe enodoada.
Se me recorto em bruma e mágoa,
à solidão da ilha trago-a
dentro de mim petrificada.
um ponto anónimo da carta.
Ó minha fala inconsequente!
Saudade morna do ausente,
distante ainda que não parta!
O horizonte é linha de água
por estrelas-peixe enodoada.
Se me recorto em bruma e mágoa,
à solidão da ilha trago-a
dentro de mim petrificada.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
#13 - BRISE MARINE, Stéphane Mallarmé
La chair est triste, hélas! et j'ai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D'etre parmi l'écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeaux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
O nuits! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai! Steamer balançant ta mâture,
Lèvre l'ancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l'adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu'un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!
Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D'etre parmi l'écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeaux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
O nuits! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai! Steamer balançant ta mâture,
Lèvre l'ancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l'adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu'un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
#12 - (FALA DO MAR), António Correia de Oliveira
-- Arte de Amar, eu fui antigamente
E sou, seu Mestre antigo e venerável.
No princípio do mundo, tempo incerto,
E quando a terra apenas aflorava
Num ar entorpecido, torvo e inútil,
Pois não surgira ainda vida viva
Que o respirasse em folha de verdura
Ou ave acasalada ou fera uivante;
No princípio do mundo (na incerteza,
no Tudo e Nada do começo) arfando
Em meus ondados, espraiados ritmos,
Eu fui o que ensinei primeiramente
A Terra inconsciente, agreste e rude,
Artes de Amor divino; quer erguido
Em aluado espasmo; quer beijando
Morna nudez de fragas; quer cingindo,
Com meus longos abraços de volúpia,
Indecisos contornos de montanhas,
Puberdade de curvas amorosas.
E depois que ensinei minha arte antiga
É que a Terra foi Mãe e foi mais bela:
As duras fragas conceberam fontes.
As fontes conceberam as verduras.
As aves construíram os seus ninhos.
E as feras monstruosas, ternamente,
Caros filhos do Amor amamentaram...
E sou, seu Mestre antigo e venerável.
No princípio do mundo, tempo incerto,
E quando a terra apenas aflorava
Num ar entorpecido, torvo e inútil,
Pois não surgira ainda vida viva
Que o respirasse em folha de verdura
Ou ave acasalada ou fera uivante;
No princípio do mundo (na incerteza,
no Tudo e Nada do começo) arfando
Em meus ondados, espraiados ritmos,
Eu fui o que ensinei primeiramente
A Terra inconsciente, agreste e rude,
Artes de Amor divino; quer erguido
Em aluado espasmo; quer beijando
Morna nudez de fragas; quer cingindo,
Com meus longos abraços de volúpia,
Indecisos contornos de montanhas,
Puberdade de curvas amorosas.
E depois que ensinei minha arte antiga
É que a Terra foi Mãe e foi mais bela:
As duras fragas conceberam fontes.
As fontes conceberam as verduras.
As aves construíram os seus ninhos.
E as feras monstruosas, ternamente,
Caros filhos do Amor amamentaram...
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António Correia de Oliveira
terça-feira, 14 de outubro de 2014
#11 - MARINHA, Fernando Pessoa
Ditosos a quem acena
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.
Doo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...
E sobe até mim, já farto
De improfíquas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.
Doo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...
E sobe até mim, já farto
De improfíquas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
#10 - "O pensamento do farol", Daniel Maia-Pinto Rodrigues
O pensamento do farol
estende-se pelo mar
à noite
quando é sua a luz marinha.
estende-se pelo mar
à noite
quando é sua a luz marinha.
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Daniel Maia-Pinto Rodrigues
sábado, 13 de setembro de 2014
#9 - LIBERDADE, Sophia de Mello Breyner Andresen
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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