terça-feira, 27 de setembro de 2016

#24 - ONDAS, Sophia de Mello Breyner Andresen

Onde -- ondas -- mais belos cavalos
Do que estes ondas que vós sois
Onde mais bela curva do pescoço
Onde mais longas crinas sacudidas
Ou impetuoso arfar no mar imenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia.



Dezembro 89

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

#23 - CINZEIRO, Jorge Barbosa

À noute quando escrevo
Tenho fantasias
Que não chego a escrever
Nem conto a ninguém.

Esta, por exemplo,
De ver um paquete
No meu cinzeiro
De feitio oblongo!

Ponho nele, de pé,
As pontas dos cigarros.
São mastros
E chaminés fumegantes...

Os fósforos
São carregamento
E a cinza
São as cinzas das fornalhas...

Deito nele
Pedacinhos de papel que eu rasgo,
-- Restos de algum poema...
São cartas para longe.

Voam à roda do meu cinzeiro
Pequeninos insectos tropicais,
Companheiros nocturnos
Dos poetas da minha terra.

São os pássaros marinhos,
As gaivotas,
Que vêm espreitar
De perto o paquete.

Empurro-o com a mão
E o paquete lá vai,
Com o rumo traçado
Através do Atlântico.

Lá vai!
Os passageiros da primeira
Passeiam no «deck»
Ou jogam o «bridge».

E a rapariga loura
Estira-se indolente
Na cadeira de lona
A ler um romance...

No convés da terceira classe,
Um emigrante qualquer
Debruçou-se na borda
Olhando o horizonte...
Sou eu.