sexta-feira, 9 de setembro de 2016

#22 - BARCOS, Yolanda Morazzo

À querida ilha de São Vicente
de Cabo Verde.

       «Nha terra ê quel piquinino
       ê São Vicente ê quê di meu.»

Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.

Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.

E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio
À embarcação:
Para o mar!
É para o mar!...

E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...

Cambambe, 3 de maio de 1962

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

#21 - A DOENÇA DA PEDRA, José Jorge Letria

Os barcos padeciam da doença da pedra:
estavam imóveis sobre os ancoradouros
como se não existisse a tentação do mar.
Tinham cordas enrodilhadas, remos ensarilhados,
velame estendido no convés, e, para além disso,
um imenso vazio a inundar os porões e as pontes.
Apodreciam, pacientes, à míngua de vento,
saudoso do embalo das ondas,
desnorteados pela falta de rota.
Eram barcos com uma embriaguez de vento
erguida na proa e uma coroa de algas
levantada nos mastros. Vinham altivos
do mar de outros séculos, arrecadando no bojo
um tesouro de vozes, uma bravura corsária,
uma cobiça de oiro. Deitava-me neles
com um sonho enredado nas malhas que tiram
sustento das águas e com um mapa
para sempre guardado na febre dos olhos.