-- Arte de Amar, eu fui antigamente
E sou, seu Mestre antigo e venerável.
No princípio do mundo, tempo incerto,
E quando a terra apenas aflorava
Num ar entorpecido, torvo e inútil,
Pois não surgira ainda vida viva
Que o respirasse em folha de verdura
Ou ave acasalada ou fera uivante;
No princípio do mundo (na incerteza,
no Tudo e Nada do começo) arfando
Em meus ondados, espraiados ritmos,
Eu fui o que ensinei primeiramente
A Terra inconsciente, agreste e rude,
Artes de Amor divino; quer erguido
Em aluado espasmo; quer beijando
Morna nudez de fragas; quer cingindo,
Com meus longos abraços de volúpia,
Indecisos contornos de montanhas,
Puberdade de curvas amorosas.
E depois que ensinei minha arte antiga
É que a Terra foi Mãe e foi mais bela:
As duras fragas conceberam fontes.
As fontes conceberam as verduras.
As aves construíram os seus ninhos.
E as feras monstruosas, ternamente,
Caros filhos do Amor amamentaram...
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
#12 - (FALA DO MAR), António Correia de Oliveira
Etiquetas:
António Correia de Oliveira
terça-feira, 14 de outubro de 2014
#11 - MARINHA, Fernando Pessoa
Ditosos a quem acena
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.
Doo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...
E sobe até mim, já farto
De improfíquas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.
Doo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...
E sobe até mim, já farto
De improfíquas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.
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