Daqui, desta falésia cor de lava,
Dum amarelo rútilo e sangrento,
Outrora debruçava-se um convento
Sobre a maré tumultuosa e brava...
E, à noite, quando no clamor do vento,
Ao largo, o temporal se anunciava,
E a voz das águas, soluçante e cava,
Punha um trovão nas furnas, agoirento,
Logo, piedosamente, cada monge
Suspendia uma lâmpada à janela,
E tangia a sineta para o coro...
E, no mar alto, o navegante, ao longe,
Via um farol luzir em cada cela,
E cada rocha a arder, em sangue e ouro...
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
#8 - INCÊNDIO, Cândido Guerreiro
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
#7 - HERANÇA, Aguinaldo Fonseca
O meu avô escravo
legou-me estas ilhas incompletas
este mar e este céu.
As ilhas
por quererem ser navios
ficaram naufragadas
entre mar e céu.
Agora
aqui vivo eu
e aqui hei-de morrer.
Meus sonhos
de asas desfeitas pelo sol da vida
deslocam-se como répteis sobre a areia quente
e enroscam-se raivosos
no cordame petrificado da fragata
das mil partidas frustradas.
Ah meu avô escravo
como tu
eu também estou encarcerado
neste navio fantasma
eternamente encalhado
entre mar e céu.
Como tu
também tenho a esmola do luar
e por amante
essa mulher de bruma, universal, fugaz,
que vai e vem
passeando à beira-mar
ou cavalgando sobre o dorso das borrascas
chamando, chamando sempre,
na voz do vento e das ondas.
legou-me estas ilhas incompletas
este mar e este céu.
As ilhas
por quererem ser navios
ficaram naufragadas
entre mar e céu.
Agora
aqui vivo eu
e aqui hei-de morrer.
Meus sonhos
de asas desfeitas pelo sol da vida
deslocam-se como répteis sobre a areia quente
e enroscam-se raivosos
no cordame petrificado da fragata
das mil partidas frustradas.
Ah meu avô escravo
como tu
eu também estou encarcerado
neste navio fantasma
eternamente encalhado
entre mar e céu.
Como tu
também tenho a esmola do luar
e por amante
essa mulher de bruma, universal, fugaz,
que vai e vem
passeando à beira-mar
ou cavalgando sobre o dorso das borrascas
chamando, chamando sempre,
na voz do vento e das ondas.
segunda-feira, 23 de junho de 2014
#6 - DA COSTA DE CASCAIS, Fiama Hasse Pais Brandão
são sinais de pescadores perdidos
no fundo, mortos, quando buscam
o sal da vida. Em vez de a sua força
fazer ceder a vaga sob o anzol,
é a força do mar ou a paixão da vida
-- arquejante e morta --
que os puxa para um purgatório
de água revolta e de limos.
ondas do oceano
sábado, 21 de junho de 2014
#5 - MAR MORTO, Alberto de Serpa
A JORGE AMADO
A noite caiu sobre o cais, sobre o mar, sobre mim.
As ondas fracas contra o molhe são vozes calmas de afogados.
O luar marca uma estrada clara e macia nas águas,
Mas os barcos que saem podem procurar mais a noite,
E com as suas luzes vão pôr mais estrelas além.
O vento foi para outros cais levar o medo,
E as mulheres que vêm dizer adeus e cantar
Hoje sabem canções com mais esperança,
Canções mais fortes que a ressaca,
Canções sem pausas onde passe uma sombra da morte.
Velhos marítimos, para quem a terra é já a sua terra,
Olham o mar mais distante e têm maior saudade.
Pára o rumor duns remos.
Não vão mais às estrelas as canções com noite, amor e morte...
Penso em todos os que foram e andam no mar,
Em todos os que ficam e andam no mar também,
E a luz do farol, lá longe, diz talvez...
sexta-feira, 13 de junho de 2014
#4 - LUSITÂNIA, Sophia de Mello Breyner Andresen
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.
Etiquetas:
Sophia de Mello Breyner Andresen
sexta-feira, 6 de junho de 2014
#3 - "Carcavelos.", José Gomes Ferreira
(Nesse verão estivemos todos juntos na praia:
o Manuel Mendes e a Bá, o Chico e a Maria Keil,
o José Bacelar e a Maria Luísa, o José Rocha e a
Selma. E eu mergulhava no mar aos Vivas à República!)
Carcavelos.
«Aqui nesta praia amarela...»
tanto esperei em vão pelo princípio do mundo
com os pés a doerem-me
nas conchas de sangue nu dos tapetes...
Depois despia-me
e desafiava o mar
para sentir na pele
aquele frio antigo tão doce de alfinetes...
quarta-feira, 4 de junho de 2014
#2 - SOLIDÃO MARINHA, Sabino de Campos
Em meio às ondas, como num letargo...
Lá se vai o voador -- peixe romântico --
Passam: toninha, méro, anchôva e pargo.
A rolar, tão sòzinho, pelo Atlântico,
Levado, brutalmente para o largo,
Nem da sereia posso ouvir um cântico
Que iluda e enleve o meu destino amargo.
Jangadinha que, ao longe, a vela enfunas,
Enfeitiçada de alegria intensa,
Como um lenço acenando para as dunas...
Dize a todos de terra a minha crença
De lutar, com essas ondas importunas,
E me abismar na solidão imensa...
Rio, 7-11-1945.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
#1 - ZÉ JEITOSO, Sidónio Muralha
Quando a noite cai, o Zé Jeitoso começa
uma história simples, uma história qualquer,
com palavras de embalar
para que o mar
adormeça,
-- o mar, diverso como um corpo de mulher.
Zé Jeitoso conta -- e os colegas a ouvi-lo,
sentados no chão, deitados no chão,
pensam que para contar aquilo
Zé Jeitoso traz o mar no coração...
Zé Jeitoso fala de longínquos portos,
de perrices fantásticas do mar,
e julga que os companheiros mortos
passeiam no céu, em noites de luar...
Zé Jeitoso fala... E nas palavras de embalar
os companheiros ficam presos...
O mar adormece... E, por cima do mar,
as estrelas parecem cachimbos acesos...
uma história simples, uma história qualquer,
com palavras de embalar
para que o mar
adormeça,
-- o mar, diverso como um corpo de mulher.
Zé Jeitoso conta -- e os colegas a ouvi-lo,
sentados no chão, deitados no chão,
pensam que para contar aquilo
Zé Jeitoso traz o mar no coração...
Zé Jeitoso fala de longínquos portos,
de perrices fantásticas do mar,
e julga que os companheiros mortos
passeiam no céu, em noites de luar...
Zé Jeitoso fala... E nas palavras de embalar
os companheiros ficam presos...
O mar adormece... E, por cima do mar,
as estrelas parecem cachimbos acesos...
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